A maioria da população brasileira é formada por pretos e pardos. De acordo com dados do IBGE do último censo, esses indivíduos representam 56,2% e, no entanto, eles não estão proporcionalmente representados no mundo da tecnologia. Essa representação, na verdade, é tão ruim que atinge empresas de diversos portes e segmentos.

Especificamente em startups brasileiras, cerca de um terço (31,2%) sequer possui profissionais negros em seu quadro de colaboradores, de acordo com a pesquisa Mapeamento das Comunidades 2021, da Associação Brasileira de Startups (Abstartups). O Índice de Equidade Racial Empresarial corrobora com esse dado e aponta que a presença desses indivíduos em cargos de Diretoria e Conselho Administrativo é ainda menor: apenas 3,3% das cadeiras são ocupadas por negros e 0,8% por negras.

Nesse contexto, cresce a preocupação de empresas que realizam uma autoavaliação e implementam iniciativas ESG (sigla em inglês para Governança Ambiental, Social e Corporativa) que abrem espaço para mobilização em prol da resolução de desigualdades e, assim, nascem programas que conectam profissionais negros a carreiras no mercado de tecnologia.

Líderes na área mostram que os projetos trazem apenas vantagens para todas as pontas: empresas, profissionais, mercado e, em última análise, fornecem melhores serviços ao consumidor final. Todos saem ganhando.

Conversamos com três representantes para entender melhor como funcionam as iniciativas e o que tem mudado no mercado de tecnologia.

Mais de 10 projetos com foco em profissionais negros e PCDs

Natalia Garcia, COO e partner na Gama Academy, conta que a companhia surgiu em 2016 com o objetivo de formar profissionais para o mercado de tecnologia e inovação. A iniciativa já formou mais de 30 mil novos profissionais em programação, vendas, marketing digital e design (UX/UI).

Parceira de mais de 600 empresas como Accenture, Itaú, Magazine Luiza e outros, a Gama Academy seleciona e capacita profissionais de maneira gratuita e realiza projetos especiais.

Com o Luiza Labs e o banco Itaú, por exemplo, já foram mais de 10 projetos voltados exclusivamente para negros e PCDs. Só em 2021, foram mais de 5 projetos com mais de 500 alunos formados e o resultado não poderia ser diferente: a maioria dos que passam pela escola é contratada.

Para Garcia, “é notório que as equipes diversas têm melhor desempenho. As empresas já entendem isso e agora estão usando ações para reduzir a lacuna e aumentar a diversidade e igualdade”.

A lacuna mencionada pela executiva, inclusive, é grande: o setor de tecnologia deve gerar 400 mil vagas até 2024, de acordo com dados da Brasscom — Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) e de Tecnologias Digitais.

O que parece uma janela de possibilidades é, na verdade, um desafio na prática. “Há oportunidades mas faltam profissionais qualificados, não só nas exigências do mercado (hard skills), mas também nas habilidades comportamentais necessárias (soft skills)”, completa.

Segundo ela, a busca por qualidade é o foco das empresas que apostam em diversidade. “Precisamos caminhar para equipes e pessoas diversas, para alcançarem a qualidade que precisamos”.

Movimento Black Money e o engajamento de profissionais negros em tecnologia

Alan Soares, fundador do Movimento Black Money (MBM), trabalha para mudar o cenário das empresas brasileiras. “O Movimento Black Money é uma releitura das ideias de Marcus Garvey e do pan-africanismo para os dias atuais. Queremos fortalecer o ecossistema negro e sua inserção no sistema produtivo através da tecnologia”, conta.

De acordo com o executivo, na área de tecnologia, os agentes do mercado precisam ser preparados e ter interesse real na pluralidade de pessoas e pensamentos se quiserem provocar uma mudança sólida.

E, para dimensionar o problema, basta fazer um movimento simples: o teste do pescoço. “Quantos colegas de trabalho na área são negros? Quantos estão em posição de liderança?”, questiona Soares.

Para ele, refletir sobre a ausência de pessoas negras no mercado é o primeiro passo. “Não é um acidente, é um projeto muito bem estruturado que faz com que pessoas pretas sejam 70% do coeficiente de desempregados e ganhem até 70% em relação ao seu par branco em mesmas condições”.

Soares afirma que “a mudança de cenário está enraizada na educação”. Nesse sentido, a dica que ele dá a profissionais que queiram ir além da busca pelo conhecimento e se manterem atualizados na área é: “Buscar aprimoramento contínuo, ser o senhor dos caminhos de sua própria carreira e utilizar as redes sociais a seu favor”.

O presente em movimento do Programadores do Amanhã

Cleber Guedes queria mudar o Brasil por meio da educação voltada à empregabilidade. Começou mudando a si próprio: de uma carreira que teve início como jovem aprendiz, passou pelo empreendedorismo e por incentivar e estudar o mercado de startups.

Assim, tornou-se fundador do Programadores do Amanhã, uma iniciativa de capacitação gratuita que já formou dezenas de jovens pretos e pardos para o mercado de tecnologia.

Por meio do programa, os participantes recebem não apenas computador e Internet, mas acompanhamento psicológico individualizado — fator fundamental para construir uma base sólida para jovens profissionais que, muitas vezes não veem o “futuro promissor” que tanto se fala de tecnologia, como observa Guedes. “Existem milhares de vagas abertas e diversos jovens se formando sem perspectiva”.

Assim, o projeto visa resolver “o problema da desigualdade no cenário do mercado de tecnologia” e não ser “apenas fornecedores de mão de obra”, nota o fundador.

A iniciativa funciona com parcerias com empresas de tecnologia, tendo formado alianças com grandes nomes como Méliuz, Olist e outras, além de doações online. Mas, aos interessados que não podem contribuir financeiramente, o programa permite ainda que eles se tornem mentores de participantes, oferecendo apoio por meio do compartilhamento de conhecimento.

Muitos desses jovens pertencem à chamada geração nem-nem (nem estuda, nem trabalha), um grupo que já representa cerca de 30% da população brasileira atualmente, de acordo com pesquisa da FGV. Guedes ressalta que o Programadores do Amanhã fornece a formação profissional, como já citado, mas também afirma que muitos, por conta das oportunidades de carreira, “conseguem mudar de vida ao fazer parte do projeto”.

“Temos muitas histórias inspiradoras. Uma de nossas participantes, por exemplo, queria trabalhar no mercado de tecnologia, mas mora em Ribeirão das Neves [Minas Gerais], fora dos grandes centros. Com muita dedicação no programa, ela conseguiu um emprego e está muito feliz em sua carreira”, comemora.

Informações gerais e iniciativas

População negra em carreiras de tecnologia

Imagem: Christina Morillo/Pexels

A Gama Academy, o Movimento Black Money e o Programadores do Amanhã são algumas iniciativas importantes para inclusão da população negra em carreiras de tecnologia e fazem parte de uma crescente de novos projetos que trabalham para construir um equilíbrio sólido e sustentável no mercado de trabalho no curto prazo, médio e longo prazos.

Apesar de muito se falar sobre o setor privado, as iniciativas também estão traçando caminhos dentro do setor público. Uma delas é a reserva de vagas para indígenas e negros — uma medida inclusiva que também vem sendo adotada por empresas privadas, com a abertura de vagas afirmativas.

No Ministério Público, por exemplo, há projetos para diminuir a discriminação no mercado de trabalho como o realizado pela Comissão da Promoção da Igualdade, cuja atuação é especificamente para que iniciativas pró-diversidade façam parte do cenário geral de iniciativas sociais de inclusão.

A advogada Evanna Soares, especialista em direito trabalhista, lembra também que “existem leis que penalizam práticas discriminatórias, pois a Constituição garante a igualdade desde o recrutamento”. Mas, como os outros entrevistados desta matéria, ela acredita que “a melhor maneira de incluir, no entanto, é investir na formação profissional”.

Abaixo você encontra o link direto das iniciativas e de mais projetos com esse propósito. Você conhece mais algum? Escreva para nós nos comentários!

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