Nesta quinta-feira (28), no evento Facebook Connect, o Facebook anunciou que foi rebatizado como Meta. A aposta do CEO Mark Zuckerberg no metaverso já tinha sido anunciada diversas vezes anteriormente. A mudança de nome da empresa, no entanto, foi um processo rápido e que surpreendeu muita gente. Conversamos com especialistas para entender o que significa essa mudança.

Presente e futuro

O Google já passou por um processo semelhante. Em 2015, a Alphabet passou a ser a holding controladora das empresas que antes estavam sob a Gigante das Buscas. No entanto, pode-se dizer que a empresa-mãe ficou discretamente nos bastidores, pois Google ainda é o nome usado pela maioria das pessoas quando a referência é a companhia e seus produtos associados.

Para Guilherme Almeida de Menezes (Moika), Consultor em Engenharia de Software do centro de inovações Cesar, “a inovação disruptiva é aquela que muda realmente o mercado como estamos acostumados”. O passo dado para aproximar-se do metaverso seria, então, neste sentido.

O metaverso é “transcender o que conhecemos de realidade virtual aplicada a pequenos contextos, como apps, jogos ou até mesmo ao cotidiano, como salas de reuniões com RV (realidade virtual)”. Ele “une a aplicabilidade da RV e da aumentada (mista) para a realidade. É como se fosse o mesmo mundo que temos hoje, mas um mundo em paralelo”, define o especialista.

De certo modo, já fazemos online muitas ações que faremos também no novo ambiente. “Poderemos criar um personagem para ir a um jogo, ir em uma loja, provar uma roupa e decidir comprá-la”, exemplifica Menezes. “A ideia do metaverso é trazer para o ambiente real algo que está no virtual”.

Novidade? Nem tanto

Uma dúvida, então, surgiu na cabeça de muita gente: o metaverso é novo? Lá em 2003, o Second Life já não fazia um pouco disto? “Sim, o Second Life e os games têm avatares ou personagens que vivem uma vida online”, confirma o especialista. “Mas, a partir do momento que você desconecta do game ou da plataforma de realidade virtual, não tem relação com o seu cotidiano”, ressalva.

“Em um jogo ou mundo virtual tradicionais, quando nos desconectamos o avatar fica lá parado, só voltará a ter ações quando voltarmos a controlá-lo”, explica. “A ideia da Meta é que os acontecimentos do metaverso tenham continuidade no cotidiano e possam ser trazidos para a realidade”, diz Menezes.

Entre as obras de ficção científica que podem ajudar a entender o metaverso, Menezes destaca o “Jogador Nº 1”. “Neste filme, o protagonista ganha moedas e compra um equipamento para ter feedback tátil no jogo, recebe em casa o equipamento, é um momento onde há uma junção do ambiente real com o virtual”, conta.

“Blade Runner” e “Snow Crash” são outras obras de ficção científica que podem ajudar o público a imaginar as possibilidades e o alcance do metaverso.

O outro lado do metaverso

Tão cheio de possibilidades, o metaverso também tem seu outro lado da moeda. “Problemas podem acontecer, da mesma forma como aconteceram com as redes sociais atuais”, diz o especialista. “As grandes empresas poderão brigar para ter o metaverso mais popularizado, corremos o risco de que criem um monopólio”.

Este 1º momento de popularização do metaverso – seja apenas um ou vários – seria seguido de uma segunda onda. “O movimento seguinte seria o movimento dos fornecedores de serviço, novos players de mercado, incluindo redes sociais, jogos, canais de fóruns e muito mais”, afirma Menezes.

O que aconteceu nas redes sociais irá se repetir no metaverso, incluindo discussões e acontecimentos como conflitos políticos. “É preciso ver como será lidar com questões como menores de idade usando as ferramentas”, aponta. E, no geral, a mudança de Facebook para Meta é vista com bons olhos para quem aposta no metaverso.

“Como em toda inovação disruptiva, precisávamos que alguém grande desse um passo nesse sentido e isso foi feito com este anúncio”, explica.

No Brasil, a preocupação maior para o crescimento do metaverso é a mesma barreira tecnológica que impede muitos de participarem em redes sociais e jogos. “A conectividade e o acesso a smartphones e computadores é a nossa principal barreira”, diz o especialista.

Não é terra sem lei

Para Raíssa Varrasquim Pavon, advogada no Escritório Ernesto Borges Advogados e especialista em direito digital e proteção de dados, o anúncio não muda alguns acontecimentos fundamentais com o Facebook, como a investigação pelo congresso americano.

“O Facebook rede social continua a existir. Meta seria apenas um guarda-chuva que abarca as empresas do grupo. Assim, os problemas que o Facebook enfrenta não desaparecem”, diz a advogada.

As investigações certamente continuarão nos EUA, com a possibilidade de novas denúncias. Para o mercado de tecnologia, entretanto, “o anúncio pode ter efeito positivo momentâneo na valorização de ações”, diz Pavon. “É a entrada em um novo mercado bastante promissor e, historicamente, redes sociais têm existido apenas durante um período”, aponta.

A maior vantagem é “tirar o foco das investigações um pouco”, diz a advogada. “Mas não se pode dizer que o anúncio fará o Facebook livrar-se de seus problemas: as denúncias podem sair da mídia mas não do radar das autoridades”, lembra.

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Reprodução: Thought Catalog on Unsplash

Para ela, a Meta surge como uma empresa distinta, separada dos pecados do Facebook. Mesmo assim, as denúncias contra o Facebook ainda podem causar muita dor de cabeça. “É possível que o Facebook seja condenado e tenha que realizar alguma forma de indenização”, completa a advogada.

O contexto de surgimento nova companhia é bem mais complexo do que no início do Facebook. “As legislações de proteção de dados já estão sendo reforçadas com a GDPR, na Europa, e a LGPD, no Brasil”, afirma a advogada. “É improvável que escândalos de vazamentos de dados não tenham consequências rápidas, como sanções aos envolvidos”, conclui.

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