Uma revisão da literatura recente sobre videogame viajou até 1964 para buscar artigos que mostravam que, apesar dos games terem grande potencial de tratar depressão, ainda estão sendo pouco usados com este fim. Os “jogos sérios” (“serious games”), como são chamados, usam abordagens de simulação para treinamento, fins educacionais e outros propósitos que vão além do entretenimento.

A revisão de literatura, publicada no Sage Journals, examina a história dessa categoria de jogos como terapia. Da década de 1960, quando a ideia ainda parecia uma piada, até hoje, quando a prática parece estar na moda mas ainda não é utilizada na prática.

Games podem ajudar a tratar a depressão. Tela do Eliza.

Eliza (Wikipédia).

O programa Eliza, de 1964, teve como objetivo repetir o diálogo escrito pelo usuário de volta a ele. Era um tipo de escuta ativa que simulava uma terapia centrada na pessoa. Utilizar o diálogo como inspiração para resposta, calculada por um sistema de processamento de linguagem natural primitivo, ajudaria o usuário a perceber sua própria tendência a refletir sobre si mesmo.

O projeto teve a intenção de provar a superficialidade de uma ideia, mas tomou um tiro pela culatra quando as interações se mostraram famosamente convincentes. Apesar disso, um pequeno estudo em psicoterapia foi feito usando o programa, com resultados ligeiramente positivos, em 1984.

Terapia de games contra a depressão

Na década de 1970, a ideia de um computador fornecer terapia começou a ser mais explorada. Em 1980, com os computadores pessoais (PCs) tornando-se mais acessíveis, programas como Morton puderam oferecer terapia cognitiva comportamental.

Estes programas eram geralmente considerados como “em aperfeiçoamento”, e houve um intervalo significativo nesta área de pesquisa na década de 1990.

Em 2017, o game neo-zelandês Sparx mostrou sua capacidade de reduzir os sintomas da depressão em um teste de controle aleatório com 540 estudantes de 12 anos. Inspirado nos guerreiros Maori, o aplicativo ainda está disponível online para residentes da Nova Zelândia.

O resultado do Sparx é coerente com uma revisão de literatura que examinou 10 testes de controle aleatórios analisando o efeito de “jogos sérios” em problemas de saúde mental. Concluiu que há “um efeito moderador significativo para o tratamento dos sintomas da depressão e demonstrou que aqueles que recebiam a intervenção não tinham benefício significativo de envolvimento adicional com um terapeuta”.

Em 2020, outra revisão de literatura com 34 testes de controle aleatórios indicou um efeito positivo, de médio porte, para estes games no tratamento de saúde física e mental.

A atual revisão de literatura contém a linha clássica “mais estudos são necessários”. No entanto, apesar de todas as evidências favoráveis, os “jogos sérios” e “games de computador como ferramentas terapêuticas ainda têm uso limitado em ambiente clínico, e poucos terapeutas os utilizam como parte de seu trabalho clínico”.

Como os games podem ajudar na depressão

Conversamos com a psicóloga Eloize Franco para entender exatamente como os games em geral podem ajudar na depressão.

“Os games estimulam habilidades como foco, concentração, memória, criatividade, pensamento crítico, resolução de problemas e ensinam a lidar com frustrações”, afirma a psicóloga.

No caso de games com bate-papo há ainda mais vantagens. “Os games podem estimular as habilidades sociais quando há contato com outras pessoas, necessidade de trabalho em equipe”, completa. Mas não são o remédio para todos os males pois “nada em excesso é bom e não dispensa a necessidade de ajuda de um profissional”, avisa Eloize.

A profissional sugeriu algumas práticas que os gamers podem adotar para ter uma boa saúde:

  • Regularidade das atividades cotidianas – respeito a uma rotina;
  • Ter horários para autocuidado, alimentação e afazeres;
  • Estimular práticas de outras atividades: ida ao cinema, prática de esportes, encontro com amigos ou família, para que o jogo não seja o único foco para o indivíduo.

Novas descobertas sobre o uso de games para depressão estão sempre acontecendo, garante a psicológa. Um estudo de 2018 da Universidade da Pensilvânia citado pela especialista coloca até em foco como os games podem ser alternativa para diminuir o uso de remédios contra a depressão.

Games e ansiedade: como lidar?

Para que os games auxiliem no tratamento contra a depressão é importante que o jogo em si não seja um motivo de ansiedade. A psicóloga Veruska Ghendov alerta sobre o potencial viciante dos jogos e relembra regras básicas.

“A ressalva é explorar bem os limites, sem impulsividade, sem exagero e limitado a uma determinada quantidade”, diz a psicóloga. E não há mágica, planejar bem, ter metas e ter boas noites de sono são alguns caminhos para lidar com a ansiedade.

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