A franquia de filmes “John Wick” começou de forma despretensiosa, podendo facilmente acabar no primeiro longa. Felizmente, não foi esse o caso e suas continuações trouxeram uma expansão narrativa tão espetacular que só foi espelhada pela sua ação espalhafatosa e seu “charme” de trazer aos holofotes uma sociedade secreta de assassinos tão organizada e regrada que, admito, não pude deixar de me atrair.

Com a chegada de John Wick 4: Baba Yaga aos cinemas, a nova iteração da franquia do lendário assassino homônimo não apenas traz um desfecho justo à agora longeva história protagonizada pelo ator canadense Keanu Reeves (58), mas deixa pequenas pontas soltas para uma eventual retomada da franquia, com ou sem ele. O mais interessante é que o filme faz isso mesmo sendo um dos mais “mentirosos” – não uma crítica, pode confiar – nos cinemas, o que o faz superar até mesmo as suas evitáveis falhas.

O filme começa algum tempo depois dos eventos de John Wick 3: Parabellum, e o titular assassino bielorusso se encontra em um momento de preparação para a inevitável guerra contra a “Cúpula” – os líderes da organização secreta que comanda a irmandade de assassinos da qual ele faz parte, por via da rede de hotéis Continental.

O quarto filme não busca trazer o fã mais novo às atualizações do enredo, e é meio difícil fazer isso em uma crítica sem entrar no terreno dos spoilers – algo que evitamos a todo custo aqui no site – mas vou tentar: no segundo filme, Wick cometeu um pecado mortal para a irmandade ao, nas palavras do roteiro do filme, “conduzir negócios” dentro do Hotel Continental de Nova York. Isso nos leva ao terceiro filme, onde todos os assassinos do mundo partem em seu encalço – a Cúpula passou a considerá-lo um pária entre seus ex-irmãos.

John Wick 4 ainda se aproveita desse contexto, então não há necessariamente um “pano de fundo” novo – não, isso não é um problema: simplesmente funciona. Em busca de sua liberdade, Wick intencionalmente mata uma figura anciã de alto respeito pela irmandade, forçando a Cúpula a enviar o “Marquês” (Bill Skarsgård, o palhaço Pennywise de “It – A Coisa”).

O Marquês não é bem como os outros antagonistas primários: embora ele próprio não seja o combatente mais capacitado, ele tem uma política que, nos termos de guerra, soldados chamam de “Terra Calcinada”: essencialmente, destruir todos os pontos mais seguros do seu alvo, cada vez mais fechando o cerco contra ele – mesmo que isso envolva matar ou recrutar amigos de longa data do seu inimigo.

Nesse ponto, temos o primeiro “rival” do guerreiro em fuga: o ex-assassino cego Caine (Donnie Yen), amigo de longa data do protagonista e que tem um acordo que o prende às ordens e devaneios da Cúpula. E a ordem do dia é: a cabeça de John Wick.

O outro “caçador” em busca do prêmio oferecido pelo Marquês é o “Rastreador” (Shamier Anderson), que é acompanhado de uma cachorra treinada para obedecer a ordens de ataque bem diretas: não raro, assassinos fugiam ao ouvir “Bolas”, se é que você entende a sutileza.

Montagem coloca lado a lado as imagens do Rastreador e Caine, personagens do filme John Wick 4: Baba Yaga

Imagem: Lionsgate/Divulgação

Aqui, eu senti o primeiro problema: considerando que John Wick 4 tem quase três horas de duração, ambos os personagens – que o filme despende um tempo grandioso tentando posicionar como figuras importantes – foram bem mal explorados.

Caine é o mais evidente nesse aspecto: ao longo dos quatro filmes, poucos foram os personagens que poderíamos nos referir a “amigos” de John Wick – e de repente vemos um cuja história parece interessante a ponto de…ah, não importa. O filme nunca toca em detalhes potencialmente fortes (ele é cego porque quis, não porque a Cúpula exigiu isso dele, por exemplo).

O rastreador funciona como uma incógnita – o próprio John Wick afirma não conhecê-lo em certo ponto. Mas assim como o personagem de Donnie Yen, ele também não é muito desmembrado, também falhando em capturar a atenção do espectador. Ao menos no caso dele, há espaço para redenção (mais sobre isso daqui a pouco).

Apontar inconsistências em um filme tão dedicado à grandeza da destruição quanto John Wick é quase um erro – é como esperar “realismo” de Velozes e Furiosos: você sabe que ambos são filmes extremamente mentirosos em todos os aspectos, e isso é muito bom. Chad Stahelski, o diretor, não tem a intenção de ser o próximo Federico Fellini. Ele quer apenas fazer um filme sobre assassinos e coisas explodindo.

Imagem mostra cena de destaque do "Marquês", vilão primário do filme John Wick 4: Baba Yaga

Imagem: Lionsgate/Divulgação

Essa receita funciona muito bem aqui, embora as cenas de ação não tragam tanta variedade quanto os três filmes anteriores da franquia – particularmente, a luta contra um imensamente irreconhecível Scott Adkins (o “Yuri Boyka” de…bem, “Boyka”) é um tanto quanto forçada – embora tenha pontos interessantes por uma espécie de “homenagem” a Constantine, anti-herói dos quadrinhos que, noutro filme, também foi protagonizado por Reeves mas que nem todo mundo vai entender – e o embate no Arco do Triunfo, em Paris, foi bem arrastado. Um monte de carros dirigindo na contramão e uns atropelamentos e…bom, foi isso, apenas.

Em compensação, quando eles saem do Arco e entram num edifício condenado, a câmera muda para uma visão-de-pássaro, se projetando sobre as cabeças dos personagens e mostrando todo o cômodo, com inimigos entrando e saindo de todos os lados na esperança de finalmente derrotar um John Wick mais do que preparado e sempre em movimento. De longe, a mais legal de todo o filme. Existe uma certa beleza nesse tipo de caos que foi bem explorada aqui, mas que não pode ser dita do restante do filme.

Fora isso, há outros problemas que deixarão o espectador mais atento com aquela cara de “ué”: o famoso “paletó-kevlar” que protegeu Wick de muita bala no filme anterior, no novo longa, virou moda – todo mundo o usa. E ele funciona bem…quando o enredo quer: quase ninguém toma um tiro decente por causa dele, mas por alguma razão, ele falha contra…facas e flechas. Como???

Ainda assim, John Wick 4 é filmão

Os parágrafos anteriores podem fazer parecer que John Wick 4: Baba Yaga é um filme fraco. Asseguro que isso não poderia estar mais longe da realidade. Como o fechamento de um arco extremamente importante, ele é sem sombra de dúvida um dos melhores filmes da franquia.

Isso porque a história, incrivelmente simples e até apelativa a clichês bem batidos (o hotel Continental de Osaka TEM QUE TER espadas e ninjas, porque JAPÃO, sacou?), é entregue de forma inteligente. Não é o tipo de filme cheio de reviravoltas e todos os eventos progridem de forma bem linear, mas ainda assim cativante.

E a melhor forma de exemplificar isso é…bem, quando o filme acaba: ele todo é projetado em uma onda crescente onde ele começa leve, e vai aumentando o tom de forma gradual até chegar a um clímax justamente no ponto exato em que deveria, com a pompa e glória de um duelo final.

Imagem mostra cena do filme "John Wick 4: Baba Yaga", com Keanu Reeves lutando contra um inimigo armado com fuzil

Imagem: Lionsgate/Divulgação

E o melhor é que, tal qual já se sabia, John Wick 4 é ao mesmo tempo uma conclusão e um reinício: já foi confirmado que a franquia continuará em formato de série, ambientada no Hotel Continental – o quarto filme expande ainda mais o cânone do estabelecimento, estabelecendo-o como uma presença constante independente de qual parte do mundo a narrativa esteja transcorrendo. Várias são as formas de isso ser explorado em um formato episódico – ok, a série, que deve estrear pelo Amazon Prime em 2023, será uma “prequência” ao primeiro filme (vem depois, mas a história é de antes) – mas nada a impede de abordar pontos que possam esclarecer os fios soltos deixados no quarto filme.

E lembra do Rastreador, que mencionamos como ele foi mal explorado mais acima? Bom, aqui é a possibilidade de redenção: de todos os personagens mais importantes, ele foi o único que ficou sem um desfecho propriamente dito…imagine ele – e sua fiel escudeira canina – envolvido de alguma forma em alguma produção futura?

O nosso veredito é: quando John Wick 4: Baba Yaga fizer a sua estreia nos cinemas em 23 de março de 2023 (próxima quinta-feira), vá ver. Todas as inconsistências que apontamos aqui, foram escritas por uma questão de isenção jornalística. No filme, durante a experiência de espectador, elas são facilmente ignoráveis se você sentar na sala com a mente limpa. É óbvio que os problemas técnicos existirão – eles sempre estarão presentes – mas ao final do dia, é um filme com ação desenfreada com uma narrativa contada de forma inteligente.

Ah, e já fica o aviso: o filme tem uma cena pós-créditos, então nada de sair da sala quando os créditos começarem (são MUITOS créditos, então demora um pouco, mas a cena estará lá).

Definitivamente, valerá o ingresso – e o inevitável box de coletânea com os outros filmes que certamente poderemos esperar ser lançado no futuro.

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