Imagem: Frame Stock Footage/Shutterstock

Se existe uma certeza nessa vida — além da morte, é claro — é que sempre haverá uma tecnologia nova capaz de otimizar alguma engenharia antiga. No desenvolvimento de games, o avanço dos motores de jogos é um ótimo exemplo disso: a cada novo lançamento, mais recursos, ferramentas e possibilidades são liberadas para devs e estúdios.

Basta olhar as últimas décadas da indústria gamer para observar esse progresso. Nos primórdios dos jogos em 3D, expressões faciais eram inexistentes, texturas muito se assemelhavam a blocos (à la Minecraft) e gráficos não eram exatamente os principais destaques.

Tomb Raider, um dos jogos 3D de 1996

Design do primeiro Tomb Raider, desenvolvido em 1996 pela Core Design – Imagem: Reprodução

Já nos dias atuais, os títulos oferecem visuais de tirar o fôlego, com gráficos em altíssima resolução e detalhes massivos para cada um dos elementos exibidos na tela. Em alguns casos, é difícil distinguir se trata-se de um jogo ou de uma filmagem, dado o alto nível de fotorrealismo.

Mas, bem, toda essa evolução só foi possível com o desenvolvimento dos motores de jogos. A Unreal Engine de 1998 chegou à sua quinta geração em 2022. A Unity, por sua vez, evoluiu brutalmente desde 2005 e já deu prévias do que players e devs poderão esperar para um futuro próximo. E outras game engines “correm pelas beiradas”, mostrando que o avanço tem sido convergente.

Naturalmente, todo esse progresso rumo ao fotorrealismo determina novos patamares gamers a níveis globais e estipula cada vez mais desafios para desenvolvedoras — desde as independentes até as gigantes.

Por conta disso, o TecMasters resolveu conversar com duas devs para saber como esse progresso dos motores de jogos tem impactando a produção de novos títulos: a gigante francesa Ubisoft e o estúdio brasileiro independente Alt Reality.

Um spoiler — talvez óbvio — sobre esses papos exclusivos? Muita coisa está mudando.

Evolução vai muito além de gráficos ultrarrealistas

Falar sobre as atuais produções gamers e não citar os gráficos cada vez mais realistas seria um grande erro. Claro que a jogabilidade pode ilustrar muito bem esse avanço de gerações, mas são os elementos visuais quem ganham a atenção inicial dos jogadores e podem influenciar na aquisição ou não do título — como julgar o livro pela capa.

E neste sentido, as game engines têm se saído muito bem. Em abril deste ano, a Epic Games finalmente lançou a primeira versão pública da Unreal Engine 5, que traz soluções de iluminação global dinâmica e criações com grandes quantidades de detalhes geométricos para cenários extremamente realistas.

A Unity não fica para trás. Também neste ano, uma das principais rivais da UE divulgou uma tech demo para mostrar que sua tecnologia está mais que preparada para a nova geração. Alta resolução, efeitos de luz e sombra e modelagens que beiram a realidade foram apenas alguns pontos de destaque do vídeo divulgado.

Mas a verdade é que o progresso dessas tecnologias vai muito além de gráficos de ponta. Para Pierre Fortin, diretor técnico da Ubisoft Quebec, as melhorias dos motores gráficos impactam diversos outros campos dentro do grande guarda-chuva que é o desenvolvimento de jogos.

“Muitas vezes, os gráficos são o elemento de destaque que vem à mente quando pensamos em inovação e melhorias técnicas na indústria de videogames. Afinal, é certamente o elemento mais visível e muitas vezes fundamental no qual os jogos são avaliados e comercializados. No entanto, os avanços nos motores gráficos também impulsionam a inovação em outros domínios que compõem o desenvolvimento de videogames”, destacou o diretor, mencionando impactos (positivos) na criação processual de elementos, desenvolvimentos de inteligência artificial (IA) e em outros campos.

Unreal Engine 5, motor de jogos da Epic Games

Ilustração de criação na Unreal Engine 5, que trouxe diversos novos recursos para desenvolvedores de games – Imagem: Divulgação/Epic Games

E essa linha de raciocínio também é observada por Lucas Ricardo, diretor criativo e fundador da Alt Reality. Para ele, esse progresso não só impulsiona alguns segmentos específicos do desenvolvimento de games, como também permite que estúdios independentes alcancem um patamar que antes não era possível.

“Esse avanço tecnológico [dos motores de jogos] é de extrema importância porque auxilia os desenvolvedores em áreas onde o trabalho manual foi considerado insubstituível — como assets, que são desenvolvidos em níveis procedurais e requisitam um código específico. Hoje o próprio motor possui algumas facilidades que permitem até mesmo quem não programa entender o funcionamento e dar seguimento no projeto, sem necessariamente depender de um trabalho manual. Além disso, em termos visuais, cada avanço permite que estúdios independentes alcancem um patamar que antes dependeria de captura de movimento, escaneamento de materiais e derivados. Cada atualização é uma forma de progredir e dar margem para a ascensão de novos desenvolvedores cheios de potencial”, pontuou Lucas.

Mais novidades, novos desafios

Sabe aquela icônica frase do filósofo tio Ben de “Homem-Aranha” que diz “Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”? Pois a mesma lição de moral pode ser aplicada para ilustrar a chegada da Unreal Engine 5, da Unity de nova geração e de companhia.

E a lógica é relativamente simples. Parece estar claro que as atualizações dessas tecnologias têm facilitado (e muito) a vida dos desenvolvedores. Em contrapartida, a oferta de novas ferramentas, recursos e possibilidades também gera mais expectativa por parte dos jogadores e responsabilidade por parte dos estúdios.

Não basta que o ambiente dos jogos atuais tenha apenas ótimos visuais. Ele também precisa não ser repetitivo para ilustrar ainda mais a realidade. E a IA dos NPCs precisa ser ainda mais inteligente, mesmo em meio à atual complexidade observada no processo de desenvolvimento de jogos.

“Implementar carros autônomos em um circuito fechado com regras bem estabelecidas é muito mais fácil do que carros autônomos em ruas movimentadas, estreitas e complexas das cidades europeias. No nosso caso, nossos carros autônomos (a IA dos NPCs) costumavam navegar por esses mundos mais simples. Hoje em dia, eles devem ser capazes de navegar e interagir em ambientes muito mais estocásticos que são forçados a eles pela expectativa de fotorrealismo e plausibilidade”, comparou Fortin.

Assassin's Creed Valhalla

Assassin’s Creed Valhalla, da Ubisoft, rodando a 4K – Imagem: Reprodução/Digital Dreams

Além dessas questões mais técnicas, o executivo da Ubisoft também enxerga que o grande papel das desenvolvedoras é “adaptar essas técnicas para que elas tenham uma pegada excessivamente pequena em termos de consumo de recursos de hardware”. Afinal, do que adianta um produto inovador em mãos se ele não pode ser bem executado pela maioria dos consumidores?

Mas claro, desafios não se restringem apenas a estúdios grandes. Melhorias de motores de jogos e ferramentas em geral fomentam o mercado, mas a adaptação pode ser mais simples para empresas que possuem porte para isso. Para quem não faz parte desse “bolo”, a situação pode ser bem mais complicada.

Neste sentido, mesmo sem os grandes orçamentos das gigantes, a Alt Reality tem se virado muito bem. O estúdio, com pouco mais de um ano de vida, já nasceu com foco na UE5 e, segundo Lucas, o esforço de sua equipe tem driblado adversidades e permitido que IPs “atinjam níveis de gráfico e fidelidade visual que originalmente as pessoas encontrariam apenas em projetos de grande orçamento (tais como AAs e AAAs)”.

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O problema é que isso não é regra entre estúdios independentes e menores. E se o avanço e adaptação a essas tecnologias têm sido convergentes, cada player do mercado tem sua parcela de contribuição. Mas sem a devida oportunidade, o progresso como um todo pode ser um pouco menos acelerado.

“Existem muitos profissionais no Brasil que possuem qualidade, potencial e técnica suficientes para trabalhar em um estúdio AAA, mas infelizmente se tornou praticamente impossível que essas pessoas recebam o devido destaque e a tão merecida chance de provar do que são capazes. Não faltam profissionais competentes no cenário nacional. O que falta é a disponibilidade das empresas de compreender onde essas pessoas podem chegar e nutrir o talento dos mesmos até que alcancem o ponto tão desejado”, disse Lucas Ricardo.

Na verdade, esses são apenas alguns dos desafios que as devs enfrentarão daqui pra frente. E, por mais clichê que seja, é natural que o mercado leve algum tempo até entender todas as peculiaridades dos novos motores de jogos, dos gostos do público, das possibilidades e das tendências. E certamente os estúdios vão passar por tudo isso — com muitos ou poucos perrengues.

Mas se novas tecnologias criam novos desafios, o que esperar do futuro?

O futuro é dos pequenos e dos grandes

Do ponto de vista tecnológico, a tendência é que cada vez mais os estúdios mirem em utilizar cada recurso disponível nos motores de jogos para garantir produtos que se aproximem de sucessos, segundo Lucas Ricardo. Por conta disso, o diferencial será baseado na originalidade.

“Enxergamos a noção de desenvolvimento de jogos caminhando para uma ascensão ainda maior de estúdios independentes. Hoje temos como exemplo estúdios grandes que trabalham com a mesma fórmula em três, quatro títulos diferentes. Enquanto isso, os jogos indie estão cada vez mais arriscando em ideias originais”, projeta o executivo.

Originalidade também é a visão de futuro do desenvolvimento de jogos para Pierre Fortin, mas de uma forma um pouco diferente. Com cada vez mais estúdios se adaptando a poucas tecnologias comerciais, a “diferenciação tecnológica” é que fará a diferença.

“À medida que o mercado se consolida em torno de poucas tecnologias comerciais, vemos que a necessidade de diferenciação tecnológica continuará cada vez mais forte. Até por isso, no ano passado, criamos um novo departamento de Tecnologia de Produção. Investir em tecnologias disruptivas como nuvem e aprendizado de máquina é fundamental para o futuro do desenvolvimento de jogos”, concluiu o executivo da Ubisoft.

Por caminhos semelhantes ou distintos, fato é que estúdios de pequeno, médio e grande porte vão rumar para um único objetivo: entregar um título digno para o público gamer. Dificuldades não faltarão, mas caberá às devs adaptarem-se às inovações tecnológicas programadas para o futuro.

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