O excesso de lixo eletrônico involuntário, a teimosia das empresas e o empoderamento dos consumidores têm feito com que o movimento do direito ao reparo ganhe cada vez mais força e esteja prestes a mudar completamente a forma como os produtos baseados em tecnologia devem ser consertados no futuro.

Quem melhor exemplifica a proposta de permitir que pessoas ou terceiros – e não apenas as fabricantes – tenha o direito de fazer o reparo de equipamentos e dispositivos é a Sony e a Microsoft, cada uma representando um dos espectros do problema.

42x PlayStation 4 e o direito ao reparo

Um vídeo publicado na última terça (5), mostra um homem empilhando dezenas de unidades de PlayStation 4 avariadas para ver até que altura a pilha consegue atingir antes de ceder. Entretenimento descerebrado típico do YouTube? Não, protesto.

O canal “TronicsFix” utiliza a brincadeira inusitada para chamar atenção ao fato de que os consoles da Sony acabam podendo ter um destino como esse simplesmente porque o direito ao reparo não é garantido para os clientes da empresa.

Na prática, isso significa que muitas peças, componentes ou até mesmo conhecimento sobre o sistema são compartilhados para que eles possam ser corrigidos facilmente pelo próprio consumidor.

Em alguns casos, a mera abertura da carcaça do produto leva à violação da garantia – mesmo que fosse algo simples de ser consertado em casa, por exemplo. Em outros, um parafuso, conector ou fio é feito com um modelo altamente proprietário exatamente para obrigar que o cliente tenha que recorrer à empresa – e pagar a taxa certa pelo serviço.

Trata-se de uma limitação artificial de acesso ao aparelho para que as fabricantes possam exercer o pleno controle de toda a cadeia de produção e consumo. Sua TV quebrou? Jogue fora e compre outra. Seu Dualsense do PS5 ou Joy-con do Switch deu problema de drift? Nada de abrir e consertar ou enviar para uma assistência local: envie tudo para a Sony ou Nintendo e espere 45 dias para ter seu produto de volta.

Impactos da restrição

Nos EUA, uma ordem executiva do presidente Joe Biden reacendeu a discussão em torno do tema, pedindo que as fabricantes tornem mais fácil e barato consertar seus próprios dispositivos.

Se for levada adiante, a medida pode exigir que as empresas se esforcem um pouco mais para desenvolver seus produtos, seja trocando celulares completamente selados por modelos com carcaças removíveis ou, em alguns casos, vendendo separadamente kits ou peças de reparo para consumidores ou assistências independentes.

Como nota um artigo do Popular Mechanics sobre o tema, a proposta afeta não só o consumidor final, mas também negócios familiares, pequenas empresas e até mesmo o sistema de saúde – como ficou evidenciado no início da pandemia.

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Reprodução: Mufid Majnun on Unsplash

Basta lembrar que na busca de governos de todo o mundo por respiradores, diversos hospitais se viram com equipamentos desses quebrados e que não podiam ser consertados facil e localmente para atender uma vítima com um quadro grave do vírus.

A Microsoft sai na frente

A primeira empresa a efetivamente começar a mudar suas práticas em relação à decisão presidencial e pressão do movimento pelo direito ao reparo é a Microsoft. Em junho, a empresa tinha sido citada nominalmente por um dos grupos do movimento para, por favor, pensar nos impactos ambientais e sociais das restrições de conserto aos seus produtos.

Na última quinta (7), a companhia de Redmond fez concessões que, ao que tudo indica, serão bastante benéficas para os consumidores de hardware da marca. Para começar, a MS deve contratar uma auditoria externa para avaliar como melhorar o acesso aos componentes e reduzir o lixo eletrônico.

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Reprodução: Przemyslaw Marczynski on Unsplash

Depois que o estudo estiver concluído, a empresa promete agir em cima desses dados até o final de 2022, colocando um prazo para que o plano saia da teoria e entre na prática. A notícia foi recebida de forma muito positiva pelas associações ligadas aos atos de direito ao reparo.

Resta saber se a decisão da dona do Windows vai mobilizar outras gigantes do setor que são tradicionalmente conservadoras nesse sentido, como a Sony, Nintendo e, claro, Apple.

Fonte: Popular Mechanics, Gizmodo

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