O Facebook está em maus lençóis — ao menos em tese. Não, não se trata de uma nova queda da plataforma como a ocorrida na última segunda-feira (4) — embora haja uma ligação indireta com o evento —, mas sim, das revelações recentes que alongaram a lista de acusações judiciais enfrentadas pela empresa de Mark Zuckerberg nos últimos anos.

Até então, o cenário já era complicado: coleta de dados em massa e invasão de privacidade pela Cambridge Analytica, acusações de interferências nas eleições presidenciais de 2016, discursos de ódio desenfreados na plataforma, ligação com o genocídio em Mianmar…

E tem mais: disseminação viral de desinformação sobre o coronavírus e vacinas, aumento crescente de golpistas e fraudadores no Facebook Marketplace, bem como “palco” para organizações dos atentados contra o Capitólio americano no começo deste ano são alguns bons exemplos — sem contar os processos antitruste, é claro.

Já a última onda de reportagens do tabloide americano The Wall Street Journal revelou que os próprios pesquisadores da rede social “identificaram os efeitos nocivos do Instagram” para a saúde mental dos adolescentes. Aliás, o algoritmo da rede social também é acusado de promover engajamentos dos usuários “a qualquer custo”.

Ilustração Instagram, do Facebook

Engajamento “forçado” do Instagram ganhou foco nos últimos meses. Foto: Cristian Dina/Pexels

O jornal relatou ainda que funcionários do Facebook alertaram que a plataforma estava sendo usada para organizações de cartéis de drogas e grupos que traficam seres humanos em países emergentes.

Diante disso, esperava-se que Zuckerberg considerasse as acusações — muitas delas vindas de dentro da própria empresa — e trabalhasse para que estes problemas fossem minimizados. O problema é que a postura adotada apontou para um rumo totalmente contrário. E é aí que está o problema.

Facebook minimiza acusações

Os efeitos nocivos do Instagram para adolescentes foram minimizados. Inclusive, Zuckerberg esteve perto de avançar com o seu projeto “Instagram Kids“, mas as críticas em massa de pais e especialistas temendo pela saúde das crianças fizeram a companhia recuar. Recuar, não desistir da ideia.

A equipe de integridade do Facebook propôs mudanças que suprimiam os ânimos para frear esse engajamento “a qualquer custo”. Zuckerberg, no entanto, derrubou essa solução. Quanto às acusações envolvendo as organizações de cartéis e traficantes humanos, a resposta da empresa foi, de certa forma, anêmica.

Essas posturas foram suficientes para que a denunciante Frances Haugen, que entrou com pelo menos oito reclamações junto ao órgão financeiro dos Estados Unidos contra o Facebook, afirmasse que a empresa “prefere o lucro à segurança”. Naturalmente, Zuckerberg afirmou que sua companhia se preocupa com a segurança, o bem-estar e a saúde mental das pessoas.

Mas muito mais do que diminuir esses problemas, a empresa resolveu adotar uma estratégia diferente e ir “ao ataque”. Em agosto, Zuckerberg assinou uma iniciativa chamada “Project Amplify” que, segundo o The New York Times, usa o feed de notícias do Facebook para “para mostrar às pessoas histórias positivas sobre a rede social”.

A intenção seria usar o Project Amplify para influenciar a forma como os usuários enxergam a plataforma. Desta forma, seria possível criar uma relação mais amistosa entre a rede e o usuário, que pode “pavimentar” a estrada para dois novos lançamentos: o “metaverso” e o Ray-Ban Stories.

A lógica é simples: ao apresentar essas novas tecnologias imersivas, os usuários ficariam ainda mais conectados com todo o ecossistema do Facebook e ignorariam todas (ou pelo menos grande parte) das acusações feitas contra a empresa. De certa forma, é possível que isso já esteja acontecendo.

Dependência

Basta analisar como foram as consequências vistas no mundo todo quando Facebook, Instagram e Whatsapp ficaram offline por algumas horas. Pessoas ficaram sem falar com familiares, empresas perderam bilhões de dólares com negócios… de maneira geral, todos foram afetados direta ou indiretamente.

Ilustração da rede social Facebook como remédio

Dependência do Facebook e de outras redes sociais podem mascarar problemas das plataformas. Foto: Mediamodifier/Pixabay

Essa dependência pode resultar naquele famoso pensamento “ruim com eles, pior sem eles”. Logo, todas as acusações ou condenações que venham a acontecer podem ser minimizadas, dada a importância que as redes ganharam em nossas vidas.

É inegável o valor que Facebook e suas outras plataformas geraram para o mundo todo. Mas isso não pode servir como um escudo impenetrável para que casos de roubo de dados, malefícios à saúde mental dos usuários ou qualquer outra queixa seja diminuída.

Resta saber se imersão vivida pela sociedade ainda permite o discernimento para estes tipos de caso. Se a resposta dessa pergunta retórica for negativa, talvez seja tarde demais para puxar o cabo — seja de alguma empresa de Zuckerberg ou de qualquer outra companhia em situação similar.

Fonte: The Guardian

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