Imagem: MUBI

Após um longo tempo longe das telonas, foi uma ótima surpresa poder voltar ao cinema e conferir uma obra tão completa quanto “Drive My Car“. A produção japonesa, baseada no conto de mesmo nome do escritor Haruki Murakami, é uma verdadeira aula sobre adaptação da literatura para a 7ª arte – e reflexão densa sobre amor e luto.

Murakami puro

Com 4 indicações ao Oscar, incluindo a de Melhor Filme, “Drive My Car” vem sendo considerado por muitos o novo “Parasita“, uma alusão clara ao sucesso arrebatador que a película sul-coreana teve junto ao público Ocidental, culminando na estatueta principal da premiação de Hollywood.

A comparação, no entanto, não vai muito além da origem asiática, dos louros em Cannes e da direção impecável. Enquanto “Parasita” trazia uma trama muito mais acessível e de apelo global – apesar de algumas particularidades e camadas extras –, o filme japonês aposta em um roteiro muito mais introspectivo e, por que não, artístico.

Pôster

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A arte como metáfora para a vida – e vice-versa –, aliás, é a alma de “Drive My Car”. No longa-metragem, somos introduzidos a Yusuke Kafuku (Hidetoshi Nishijima), um diretor e ator de teatro que tem uma vida aparentemente feliz e que é despedaçada diante de seus olhos.

Ele não só descobre que sua amada esposa, a roteirista Oto (Reika Kirishima), o trai rotineiramente, como ela falece de forma repentina, antes que ele encontre coragem para trazer esse assunto à tona. Anos depois, Kafuku encontra uma jovem motorista que pode ajudá-lo a finalmente lidar com a perda.

Adaptação sob medida

Essa premissa básica do filme é virtualmente idêntica à do texto literário. A principal diferença é que, enquanto Murakami tem menos de 40 páginas para desenvolver “Drive My Car”, o roteirista e diretor Ryusuke Hamaguchi dedica 3 horas à trama.

Fazendo jus ao estilo popularmente chamado de “slow burn” (algo como “queima lenta”), o filme leva cerca de 45 minutos para trazer os primeiros créditos em tela, utilizando esse tempo para aprofundar consideravelmente a relação entre o protagonista e sua esposa – algo que acontece em flashbacks rápidos no livro.

Ou seja, apesar do longo tempo de exibição, a experiência não é cansativa ou morosa. O desenvolvimento da interação entre Kafuku e a jovem Misaki (Toko Miura), motorista contratada para cuidar do artista enquanto ele dirige uma peça de teatro, também é explorada de uma forma muito orgânica, graças ao tempo extra de tela.

Isso não significa que os principais tópicos do conto foram meramente expandidos e ampliados para justificar a duração do longa-metragem. Houve um processo meticuloso de adaptação e até mesmo atualização do texto redigido pelo autor japonês em 2014.

Arte, vida e morte

A forma como o personagem principal se aproxima do último amante de sua mulher, por exemplo, é bem diferente da abordagem de Murakami, assim como o nível de franqueza nas conversas entre os dois, mas a mudança faz todo sentido no contexto da história.

E o foco dessa história é a peça “Tio Vânia”, do dramaturgo russo Anton Tchécov, que ocupa praticamente dois terços de todo o filme. Enquanto no conto a obra tem um aspecto mais complementar à trama, aqui ela se torna um dos personagens principais e fio condutor do roteiro. Isso acontece de duas formas.

Primeiramente, pelo fato de ser uma versão inusitada da peça russa, com atores de diferentes nacionalidades e executada em múltiplos idiomas ao mesmo tempo.

Isso não só permite a participação de um elenco de suporte extremamente diverso e cativante no longa – com destaque para a personagem Lee Yoon-a (Park Yoo-Rim), que atua por meio da linguagem de sinais sul-coreana –, como parece uma daquelas pequenas excentricidades da vida real que Murakami colocaria em sua obra caso tivesse chance.

Sonia Yuan e Park Yoo-Rim

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Depois, porque o texto de “Tio Vânia” parece vivo e atual, conversando quase que diretamente sobre e com os personagens e os tornando mais vulneráveis. Os diálogos da peça abordam desde relacionamentos e decepções amorosas até o luto, servindo de vetor para que Kufuku “fale” com Oto e, anos após sua morte, lide com a perda.

Outras adaptações interessantes do conto para o filme incluem a adição magistral de elementos de “Sherazade”, outro texto do mesmo livro (“Homens Sem Mulheres”), para enriquecer ainda mais a jornada de “Drive My Car”.

Por fim, diversas observações machistas do protagonista na obra original – da sua opinião sobre como as mulheres dirigem até uma avaliação minuciosa da aparência de Misaki – saem de cena para dar lugar a reflexões mais importantes (porque, convenhamos, qualquer discussão é mais inteligente que comentários machistas aleatórios).

Considerações finais

Com uma trama densa e conclusão agridoce, seria muito fácil que “Drive My Car” se tornasse um melodrama qualquer nas mãos de profissionais menos habilidosos. Ryusuke Hamaguchi, no entanto, mostra que tem perícia de sobra na condução do filme.

Assim como na vida real, as histórias de amor não são só alegria e as de luto são apenas de tristeza: todas as nuances das desventuras do dia a dia estão presentes em tela e ajudam a construir uma história sincera, bonita e que é apenas um recorte de uma jornada bem mais longa. É incrível olhar para o lado na sala de cinema e ver pessoas com os olhos marejados apenas para que, minutos depois, todo o público solte a tensão em gostosas risadas.

Oto e Kufuku

Imagem: MUBI

Toda produção técnica de “Drive My Car” só amplifica os aspectos artísticos e as decisões de roteiro. A cinematografia belíssima, a edição minuciosa e as locações mais do que inspiradas, principalmente na região de Hiroshima, ajudam a contar uma história ainda mais envolvente e marcante.

Vale aqui uma menção especial ao trabalho de áudio do filme, que intercala momentos de silêncio brutais com o jazz que é marca registrada de Murakami.

Drive My Car

Lançado em agosto de 2021 no Japão e em dezembro do mesmo ano no circuito internacional, “Drive My Car” é um dos últimos concorrentes do Oscar de Melhor Filme a chegar ao Brasil.

Por aqui, o filme tem estreia nos cinemas programada para o dia 17 de março de 2022, com distribuição da O2 Play. Posteriormente, em 1º de abril, o longa-metragem passa a ser disponibilizado para reprodução via streaming no MUBI.

Drive My Car” pode não ser o “Parasita” que muita gente esperava e, definitivamente, não é para um público tão amplo quanto o filme sul-coreano, mas é uma das melhores produções a chegar ao país em 2022 e vai deixar sua marca em você – se você der uma chance.

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