Os canais de cortes de podcasts estão cada vez mais populares e caíram no gosto dos brasileiros, que já são grandes consumidores de podcasts tradicionais.

Recentemente, o YouTube publicou uma pesquisa sobre um novo amor do brasileiro: os podcasts (com vídeo). No artigo da empresa, 63,1% do grupo de brasileiros entrevistados afirma já ter ouvido podcasts na plataforma.

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Apesar de ser um serviço focado em vídeo, o YouTube é uma escolha muito popular entre os brasileiros fãs do formato. Mais interessante ainda, os canais que focam especificamente em publicar trechos de podcasts parecem fazer um sucesso inusitado no filhote da Google.

E como fica o Spotify nessa história? Bem, o app continua sendo o canal preferido para os ouvintes de podcasts no Brasil, mas até mesmo ele reconhece o potencial dos canais de cortes para fomentar esse segmento de conteúdo.

Comparamos alguns números dos canais com grande audiência e conversamos com ouvintes, representantes de plataformas e criadores para saber mais sobre essa crescente.

Números dos cortes

Será que os brasileiros gostam tanto desses canais? Os cortes podem ser mais populares que o conteúdo original? Fomos atrás dos números para tentar encontrar uma resposta e entender o comportamento – e engajamento – dos ouvintes. Adiantamos: é difícil não se surpreender com o tamanho desse filão derivado dos podcasts.

Para colocar tudo em perspectiva, você pode conferir, na tabela abaixo, diversos dados comparativos sobre alguns grandes canais e de seus respectivos perfis de cortes. Veja:

Canal/Podcast Inscritos Ganhos estimados (ano) Cortes Inscritos Ganhos estimados (ano)
Flow 3,45 milhões US$ 57,5K a 920,5K Cortes do Flow 1,8M US$ 60K a 959,4K
Casimiro 310 mil US$ 10,2K  a 162,4K Cortes do Casimiro 700K US$ 158K  a 2,5M
Podpah 4,05 milhões US$ 99,1K  a 1,6M Cortes Podpah 1,7M US$ 107,6K a 1,7M
Inteligência Limitada 873 mil US$ 26,1K a 417,3K Cortes Inteligência Limitada 573K US$ 67,3K  a 1,1M

Além dos números massivos de inscritos, o que chama atenção aqui é que a receita dos cortes, obtida por meio da plataforma Social Blade, pode estar bem próxima ou mesmo superar a estimativa do canal original. É praticamente o mesmo conteúdo, mas o criador pode ter o dobro de lucro.

Dessa forma, dá até para pensar que todos os ouvintes de podcasts gostam de ouvir trechos – talvez até prefiram. Mas não é uma unanimidade.

Contra ou a favor?

Conversamos com a comunidade no Telegram do Chá com Rapadura, composta por 900 dos mais de 1,4 mil inscritos do podcast homônimo, e perguntamos a opinião dos ouvintes sobre os canais de corte. Tivemos respostas bem diferentes.

Para Katia Lima, o formato não agrada. “Corte de podcast é a ‘twitterização’ do mundo. Que mania é essa de não ter tempo para nada? Se a gente não tem tempo mesmo, então não tem que escutar trecho de nada. Senão você fica sem o contexto todo. É muito sério isso: a gente lê orelha de livro e acha que leu o livro, pega algo no Twitter e acha que entendeu o assunto. Agora, escutar trecho de podcast? É tudo muito raso demais”.

A opinião de Alan Garcia é diferente. “Acho que vão ficar mais populares do que os canais principais, pois tem um monte de podcasts de entrevista agora, tem influenciador digital entrevistando outro, e acaba ficando repetitivo”, analisa.

Para determinados podcasts e entrevistados, “os trechos são melhores. Ouço quase sempre por streaming o do Rafinha Bastos, o do Mano Brown e o do UOL Entrevista porque são convidados interessantes, aí são para ser ouvidos inteiros”, complementa Alan. “Para saber de futilidades, fofocas de celebridades, basta o trecho mesmo”, completa.

 

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Imagem: Henry Be/Unsplash

Uma ouvinte que gosta de ouvir primeiro o trecho e depois o podcast inteiro é Geovane Albuquerque. “Quando tem algum convidado que eu goste muito em um podcast, vejo os cortes e daí, talvez, o episódio todo”, conta. Geovane afirma, no entanto, que “escuto podcast há muito tempo, então, não sou muito fã do YouTube, gosto de revezar com o Spotify e só me inscrevo nos canais principais”.

Não é terra sem lei

Os canais de corte podem ter caído no gosto dos brasileiros no YouTube, mas também podem ser uma dor de cabeça para os criadores originais. Cortes não autorizados com títulos manipulados para atrair audiência costumam ser denunciados e a plataforma acaba tendo que retirá-los do ar.

Assim, muitos podcasts resolvem fazer seus próprios canais de corte oficiais, facilitando a divulgação de trechos e evitando cortes inadequados e “piratas”. Podcasts mais famosos como o Flow, por exemplo, até permitem que a comunidade faça seus próprios cortes, mas têm regras específicas para isso, como:

  • Esperar o programa acabar para fazer upload dos vídeos;
  • Não mentir no título e na thumbnail;
  • Colocar o link do episódio completo na descrição.

Quando qualquer uma das regras é infringida, o vídeo recebe alerta dos autores do Flow. Se o canal receber um comentário de aviso em três vídeos diferentes, o perfil é derrubado.

Entre criadores e cortadores

Outro especialista no assunto que conversou com o TecMasters foi Rogério Vilela, do Inteligência Ltda. O podcast tem um canal de cortes oficial e Vilela falou sobre as vantagens e desvantagens do formato.

“Canal de corte é bom para o canal principal, pois ele traz muita gente para conhecer o seu podcast”, diz o criador de conteúdo. “Como são cortes curtos, de até 10 minutos, quem vê pode ficar curioso para assistir ao episódio inteiro”, completa.

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Rogério Vilela, podcaster do Inteligência Ltda (Foto: Arquivo Pessoal).

“Existe uma infinidade de canais de corte não oficiais ou piratas, que usam do material original”, conta o criador do Inteligência Ltda. Por um lado, “ajudam a divulgar o canal, mas pode atrapalhar também. Afinal, você está dividindo visualizações com um canal que não produziu o conteúdo.”

A longevidade de um perfil de corte não autorizado pode ser bem passageira. “A tendência é que esses canais acabem com o tempo, pois fazem de tudo para ganhar visualizações, colocam títulos mentirosos ou tentam aparecer demais, muito preocupados com dinheiro e não com a divulgação do programa”, analisa Vilela.

Mesmo com o canal principal e o canal oficial de cortes no YouTube, o Inteligência Ltda. segue firme no Spotify e aposta nas novidades por lá. “Estamos em todas as plataformas, a diferença do Spotify é que não monetizava como o YouTube, mas isso já começou a mudar”, conta.

O Spotify anunciou em agosto que lançaria conteúdo de podcasts por assinatura para ajudar os criadores a terem lucro com seu conteúdo.

Spotify: qualidade e compartilhamento

Por falar nisso, também conversamos com Javier Piñol, diretor do Spotify Studios tanto para a América Latina quanto para o público latino nos EUA. No papo, o executivo falou não só sobre o fenômeno dos cortes, mas também a respeito da visão da empresa para os podcasts no Brasil.

De uma forma geral, o Spotify está feliz. E não apenas com o crescimento no país. No mundo todo, houve uma alta de 20% em comparação ao ano passado em número de usuários.

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Imagem: sgcdesignco/Unsplash

Segundo o executivo, são 3,2 milhões de podcasts gratuitos à disposição do público local. E como os brasileiros chegam até este conteúdo?

O compartilhamento nas redes sociais têm papel importante nesse fluxo e, no caso do Spotify, tanto para as páginas dos podcasts quanto para os episódios. Mas os cortes também podem entrar na jogada.

“O fato de trechos de podcasts serem compartilhados nas redes sociais é positivo não só para o Spotify, como para todas as plataformas de streaming e canais de rádio e televisão”, ressalta Piñol.

Falando no sucesso dos podcasts e seus cortes nas plataformas de vídeo, o executivo afirma que mais novidades devem chegar no Brasil em breve. Os podcasts com imagens, que foram liberados recentemente nos EUA, também serão disponibilizados aos criadores brasileiros.

Potencial inexplorado?

Procuramos o YouTube para saber mais sobre os canais de corte, mas um porta-voz da plataforma afirmou não ter informações suficientes para falar sobre o assunto. Não deixa de ser interessante notar, no entanto, como até o Spotify tem uma opinião sobre o assunto, mas não a Google.

O fato é que mais canais de corte surgem a cada dia e há até mesmo sites construídos fora do YouTube dedicados exclusivamente a trechos de podcasts. Como Vilela alertou, boa parte desse conteúdo é mesmo isca para conteúdo publicitário que gera lucro aos “cortadores”.

Quer a escolha seja por canais oficiais de corte no YouTube ou canais do Spotify, o brasileiro consome cada vez mais podcasts e certamente veremos novidades interessantes em 2022 – tanto para criadores quanto para ouvintes.

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