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O ano de 1984 parece tão próximo e ao mesmo tempo tão distante. O ano da ficção científica nos remete à Inglaterra totalitária de Orwell, ao Big Brother vigilante cujos olhos curiosos nunca secam; o ano antecipa a Matrix, e de forma muito precisa, Neuromancer, de William Gibson, antevê o futuro da humanidade — não faltam exemplos para afirmar o quão ela se cristaliza em volta da visão do escritor norte-americano.

Biohacking: no futuro próximo, todos nós seremos ciborgues?

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Nesse universo distópico narrado no primeiro romance do cocriador do gênero cyberpunk, poderíamos dizer também que Gibson, não só anteviu o futuro, mas criou a nossa realidade de hoje, que se colam aos universos de Blade Runner, 1984 e tantos outros clássicos da ficção científica.

Embora a palavra ciborgue soe muito distante da nossa realidade ao nosso cérebro orgânico, ou restrita aos diálogos de filmes hollywoodianos, agregar novas funções ao corpo humano, implantando biochips, é uma ideia cada vez mais simpática aos que buscam uma versão sobre-humana de si mesmo.

A prática do transhumanismo, mais conhecida como biohacking, pode parecer nova, porém, ela nos leva ao século I d.C, quando estudiosos criaram o primeiro óculos de grau para corrigir erros de refração, como a miopia, a partir de lâminas de pedras semipreciosas. Mesmo que os óculos que conhecemos hoje só tenham surgido no século XIII, na Alemanha, o uso desse acessório, que não nos remete a nada futurista, é um exemplo de biohack não interventivo.

Essa abordagem, externa ao corpo humano, é uma das duas grandes vertentes que regem o biohacking. Nesse intervalo, práticas mais ou menos interventivas também se destacaram e se tornaram tão comuns em nosso dia a dia, como as lentes de contato, idealizada pela primeira vez pelo (também) biohacker Leonardo Da Vinci, e materializada mais de 370 anos depois nas mãos do fisiologista e oftalmologista alemão Adolf Eugen Fick.

“O corpo funde-se gradualmente com as novas tecnologias. O corpo torna-se um híbrido, campo de intervenções artificiais como a cirurgia plástica, a engenharia genética, as nanotecnologias” — André Lemos em Cibercultura

Mais tarde, Tsutomu Sato avançou a um patamar mais radical: fazer incisões na parte da frente e atrás do olhos dos pacientes para corrigir problemas de visão. O procedimento que encontrava complicações foi aperfeiçoado posteriormente pelo também oftalmologista Svyatoslav Fyodorov, que as evitou ao fazer os cortes apenas no lado frontal do olho.

O problema de visão que atinge boa parte da população encontrou resoluções tão aperfeiçoadas, que passamos dos óculos a nada em cerca de dois mil anos. Entretanto, o desejo humano de buscar a visão perfeita nunca parou, e com a sedução da tecnologia, a ideia hoje é avançar ao patamar de super-heróis: conquistar uma visão sobre-humana.

Há sete anos, um grupo de biohackers norte-americanos submeteu os olhos a injeção de 50 ml de Chlorin e6 (Ce6) para ter uma visão noturna. Uma hora depois, com os olhos completamente negros, Gabriel Licina foi capaz de enxergar objetos a 50 metros de distância por algumas horas em ambientes sem iluminação.

Biohacking: no futuro próximo, todos nós seremos ciborgues?

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Embora os biohackers fazem do próprio corpo um ambiente de testes, produzindo aprimoramentos em prol da ciência e da tecnologia, eles podem correr sérios riscos de saúde.

Biohacking: no futuro próximo, todos nós seremos ciborgues?

Matheus mostra os últimos biochips implantados. Imagem: arquivo pessoal

É desta forma, consciente dos riscos, que o grinder (termo que descreve biohackers dispostos a se submeterem a implantes de novos devices) e security focal da Kyndryl, Matheus Gaboardi, coleciona cinco biochips sobre os ossos da mão direita e esquerda. O jovem de apenas 23 anos palestra amanhã (9) no Roadsec, conhecido como maior festival hacker da América Latina.

Biohacking: no futuro próximo, todos nós seremos ciborgues?

Imagem: Roadsec

Em “Implante NFC LED – DIY Biohacking, seu corpo como ambiente de teste”, tema da apresentação no evento que acontece em São Paulo, Gaboardi vai dividir com os presentes um pouco da experiência como ciborgue.

Embora ainda muito jovem, o palestrante conta em um bate-papo com o TecMasters, que o interesse em usar o corpo como laboratório surgiu quando adolescente, por volta dos 16 anos. Entusiasta de modificação corporal, com vários piercings e alargadores, ele comenta que o implante de chips foi uma junção de interesses: modificar o corpo com toque tecnológico, influência da área na qual trabalha atualmente.

Dentre os cinco implantes, ele revela que é a primeira pessoa no Brasil com um NFC LED. Como o próprio nome diz, ao aproximar-se do dispositivo NFC, pequenas luzes se acendem abaixo da pele, confirmando a leitura da tag. Para essa compreensão ficar mais fácil, pense nos cartões contactless. Ao aproximá-los de um leitor, a tag é lida, automatizando o processo da transação.

Apesar de não ter (ainda) um chip voltado para pagamentos implantado no corpo, o profissional de segurança conta que consegue automatizar pequenas tarefas, dando praticidade ao dia a dia, abrindo fechaduras inteligentes, desbloqueando o computador pessoal, além de servir de porta-cartões e armazenador de favoritos, tudo sob a pele das mãos.

No canal do YouTube, ele demonstra em vídeos curtos essas possibilidades, além dos procedimentos de implantação dos biochips. Para os mais sensíveis, deixamos o aviso: eles não são censurados.

E a segurança e privacidade?

Assim como os golpes se aproveitam da tecnologia por meio de frequências, é preciso ter cuidado também com os dados armazenados na memória desses biochips, alerta Gaboardi.

Senhas? Jamais. Pelo menos, não enquanto esses produtos não receberem uma camada extra de segurança, capaz de criptografar os dados armazenados. O que não deve demorar muito, segundo o entrevistado.

RGB sob a pele? Pagamentos sem cartão e sem celular?

Entretanto, fazer pagamentos usando apenas o dorso da mão, pulso ou qualquer parte do corpo no qual tenha se implantado o biochip específico, já é realidade. Ao menos na Europa.

Biohacking: no futuro próximo, todos nós seremos ciborgues?

Imagem: VivoKey Technologies

A VivoKey Technologies, a pioneira no setor, já desenvolve implantes criptobiônicos que permitem fazer transações seguras sem a ajuda de celulares ou cartões de plástico. O fundador da empresa, Amaal Graafstra, é também o responsável pela fornecedora de implantes RFID e transponder NFC de consumo Dangerous Things.

Além do setor de pagamentos, em breve lançamento, Graafstra também promete chamar a atenção de gamers apaixonados pelas luzes RGB de periféricos. Com apelo puramente estético, os biochips Apex também vão ganhar o espectro cromático ao serem energizados, com a diferença de que essa luz estará por debaixo da pele.

Quando perguntando sobre essa realidade chegar a maioria das pessoas do mundo, Gaboardi, que tem apreço pela praticidade que a tecnologia traz, confessa que isso pode não ser um cenário para um futuro muito próximo, daqui a uns 10 anos. Enquanto essa realidade não chega para todos, ele planeja inserir novos implantes para continuar apoiando a evolução do biohacking, que é apenas possível graças aos agentes que tornam o corpo o próprio laboratório.

 

Serviço — “Implante NFC LED – DIY Biohacking, seu corpo como ambiente de teste” no Festival Roadsec
Data e horário: 9 de julho de 2022, às 13h no palco Hardware
Local: Arca (Av. Manuel Bandeira, 360. Vila Leopoldina, São Paulo — SP)
Ingressos: 10% de desconto exclusivo para leitores do TecMasters
Mais detalhes: roadsec.com.br

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